Em uma disputa que testou criatividade, técnica e capacidade de trabalhar sob pressão, a edição de 2026 do World Class Brasil, maior campeonato de coquetelaria do mundo, consagrou mais um nome: Michell Agues. Com 20 anos de experiência no ramo, o bartender de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, já havia participado do concurso outras três vezes antes do título – e, agora, mira o título mundial.
Uma vitória construída em quatro edições

Promovido pela Diageo, o World Class reúne anualmente os melhores bartenders do País em provas que exigem tanto técnica quanto storytelling – e, nesse contexto, Michell é um nome que o circuito já conhecia bem. Além de já ter participado do torneio outras três vezes, ele é sócio-fundador do Bar Skull, escola de coquetelaria no Rio de Janeiro, e consultor de bares.
Sua chegada ao topo do pódio na edição de 2026, portanto, não foi surpresa para quem o acompanha, mas a demora em chegar lá o ensinou grandes lições. “O World Class foi, um dia, muito distante para mim, mas eu nunca deixei de querer. Eu insisti, persisti e cheguei”, afirma.
Michell nos conta que, na primeira participação, ele chegou confiante, mas se surpreendeu com o nível da disputa. Já na segunda, ele aprendeu o valor da concentração. Na terceira, ele observou de perto rivais que competiram de forma exemplar e, então, entendeu o que realmente estava faltando.
“Na quarta vez, eu cheguei com tudo o que me ensinaram e com a certeza de como eu seria eu mesmo. Acho que eu não cheguei diferente na quarta edição, só aprendi como chegar sendo eu mesmo. Não era apenas sobre chegar em primeiro, eu queria ser o primeiro para mim também”, declara.
Agora, com o pódio sob os pés e data marcada para representar o Brasil na final da competição, ele reflete sobre a conquista. “A lição que fica para mim é: nenhum sonho é grande demais para alcançar”, diz ele, afirmando acreditar que a vitória também reflete em seu trabalho. “Quando se participa do World Class, as pessoas mudam a forma de te ver. E isso é realmente impressionante”, pontua.
Ingrediente surpresa, cinco drinks em quatro minutos e mais

Ainda que agora colha os frutos da tão aguardada vitória, Michell teve de driblar obstáculos na competição. Na semifinal, por exemplo, os dez bartenders que estavam na etapa tiveram de usar Johnnie Walker 18 anos para criar um drink que harmonizasse com o prato do dia: risoto de açafrão e paleta de cordeiro. Os ingredientes para o drink, porém, foram sorteados na hora – e os de Michell incluíram uma surpresa.
“Poxa, caiu café solúvel na minha caixa! Fiz três preparações diferentes para testar no coquetel. Três em uma hora!”, relembra ele, com bom humor, explicando que o processo criativo começou antes mesmo de qualquer coqueteleira sair do lugar.
Sentado à mesa durante as entradas, ele observou e anotou tudo o que os jurados comiam, buscando mapear o perfil sensorial deles. O prato principal, untuoso e potente, pedia um drink que respondesse à altura: um coquetel de ameixa defumada com tomilho, neve carbonatada de café com base de vinho, bitter de cacau, geleia de ameixa com mel e flor de sal servida à parte.
Tudo isso foi pensado para enaltecer as notas do whisky. “Sabia que o drink deveria ser seco, persistente, vivo e amadeirado. A história que eu tinha montado para contar era a de um convite para um banquete de Natal”, afirma.
Já na final, mais uma prova de fogo: enfrentar outros dois competidores no preparo de cinco drinks clássicos em, no máximo, cinco minutos, sem concessões em velocidade e sem deixar a qualidade se esvair. Apesar da dificuldade do desafio, porém, Michell surpreendeu novamente ao terminar a prova em 4 minutos e 2 segundos – e ele nos explicou como fez isso.
Durante mais de dez anos como competidor de flair bartending (arte de manipular elementos da coquetelaria de forma acrobática), ele tinha a experiência necessária para tirar a etapa de letra. “Nos últimos anos, juntei essa experiência de velocidade com a de serviço. Por isso, consegui terminar nesse tempo – mas com calma, servindo tudo como faria em um bar no melhor serviço”, pontua.
Olhos no mundial desde antes da vitória

Mesmo antes de vencer a competição, Michell já treinava para o mundial. Agora, com o título em mãos, o foco dele está em elevar o nível de percepção sensorial dos coquetéis e entender como apresentar sabores brasileiros para o paladar europeu. “A vontade de levar a verdade do Brasil é enorme. O caminho é íngreme, mas vamos nessa”, declara.
Paralelamente à preparação para o mundial, Michell segue à frente do Bar Skull e da Maison du Bar, sua empresa de eventos. Além disso, ele também abre em breve o Jovelina, bar na Lapa, no Rio de Janeiro, descrito por ele simplesmente como “um bar do Brasil”. Apesar dos muitos objetivos, ele tem clareza sobre onde está sua cabeça agora. “Meu objetivo profissional há quatro anos é ir para esse mundial. Agora que estou aqui, vamos com tudo!”, conclui.