“Sober curious” (ou “sóbrio curioso”, em tradução literal para português), é uma expressão que tem se tornado muito conhecida especialmente entre os jovens. Apesar de incluir a ideia de sobriedade, porém, ele não designa a ideia de proibir ou julgar a bebida alcoólica, mas sim o movimento de repensar o consumo de álcool.
Esse comportamento vem crescendo de forma paralela à preocupação crescente com um estilo de vida equilibrado – e, com isso, já tem ganhado espaço até mesmo em bares, motivando a criação de drinks sofisticados e diferentes, mas sem teor alcoólico. Entenda abaixo de onde vem o termo, o que dizem os dados sobre o consumo de álcool hoje e como preparar bons drinks sem álcool em casa:
Sober curious: comportamento, origem e cenário do consumo de álcool
A ideia de repensar a relação com o álcool é anterior à popularidade desse termpo. Essa expressão surgiu em 2016 pela escritora Ruby Warrington, e ganhou força com o livro “Sober Curious”, lançado dois anos depois. Antes disso, no entanto, movimentos como o Dry January (“Janeiro Seco”), da organização britânica Alcohol Change UK, já vinham propondo um comportamento mais equilibrado sobre o consumo de bebidas alcoólicas.
Apesar do nome, porém, essa tendência não exige abstinência – ou seja, deixar de beber por completo, de forma definitiva. Em português, essa lógica se aproxima mais de um consumo consciente de álcool, podendo aparecer de formas diferentes. Assim, para uns, o movimento “sober curious” significa beber menos em cada ocasião, enquanto para outros pode significar espaçar os dias em que se bebe, trocar o drink tradicional por uma opção sem álcool ou fazer pausas temporárias.
Nesse cenário, inclusive, cada vez mais marcas estão propondo bebidas sem álcool ou até adaptógenas – ou seja, aperitivos que usam ervas e outros ativos não-alcoólicos para promover sensações de bem-estar. É o caso de bebidas que utilizam, por exemplo, jambu (que causa leve formigamento na boca) e valeriana (conhecida por ajudar a relaxar).

Cenário: o que dizem os dados sobre o consumo de álcool
Nos Estados Unidos, o Gallup, um dos institutos de pesquisa de opinião mais tradicionais do país, estuda desde 1939 o comportamento das pessoas com relação a bebidas alcoólicas. Em julho de 2026, entres 1.2 mil entrevistados, 54% responderam que consomem álcool – e esse é o menor percentual desde o início da pesquisa.
Os dados de outros anos, inclusive, mostram a dimensão dessa redução: entre 1976 e 1978, esse índice chegou a 71%, e ficou em 67% em 2022. Depois disso, ele entrou em queda contínua até chegar em 62% em 2023, 58% em 2024 e se manter em 2026.
Além disso, a pesquisa também aponta que a redução é maior na faixa dos 18 aos 34 anos – e essa queda entre os mais jovens se repete em outras pesquisas. A NCSolutions, empresa especializada em dados de consumo e publicidade, faz levantamentos anuais com mais de mil adultos norte-americanos sobre a intenção deles de diminuir o consumo de álcool no ano seguinte. Em 2023, apenas 40% pretendiam reduzir – mas, em 2025, o índice chegou a 65%.
Já no Brasil, o levantamento anual da Unifesp sobre o tema mostrou que, na terceira edição (2023) 42,5% dos brasileiros afirmaram beber – índice que, em 2012, era de 47,7%.
Essa mudança, inclusive, já chama a atenção do setor de bebidas. A Diageo, dona de marcas como Johnnie Walker e Smirnoff, afirma que as pessoas buscam orientações práticas sobre como o álcool se encaixa no estilo de vida e nas decisões do dia a dia – e vem atualizando o DRINKiQ, plataforma online de orientação sobre consumo responsável lançada em 2008 e disponível em 26 idiomas.

Drinks sem álcool: alternativas para quem quer beber menos
Quem decide beber menos não precisa mais ficar apenas no refrigerante. Isso porque, hoje, os drinks sem álcool são cada vez mais comuns – e, frequentemente, eles surpreendem com uma mistura de sabores bem inesperada. Recorrer a isso ajuda a manter o “ritual” de ter uma bebida na mão durante a reunião e de desfrutar de algo gostoso sem que todas as rodadas sejam regadas a álcool.
Nesse cenário, existem dois tipos de bebidas sem álcool: os “mocktails” (que une os termos “mock”, de “imitação” e “cocktail”, que é “coquetel), drinks sem álcool montados do zero, com ingredientes como sucos, chás e xaropes, e as versões zero álcool de bebidas conhecidas (como cervejas e até gins que reproduzem o perfil da bebida original, mas sem o teor alcoólico).
O segundo tipo, inclusive, já aparece em marcas grandes como a Tanqueray. O Tanqueray 0.0%, por exemplo, foi lançado pela Diageo em 2025, e traz o perfil típico do gin London Dry da marca em uma bebida também destilada, como o original, mas sem qualquer dose de álcool. Com ele, é possível criar “mocktails” – como um clássico gin & tônica, aproveitando o mesmo sabor e reduzindo o consumo alcoólico ao mesmo tempo.
Ainda nesse cenário, a companhia tem também opções como o Gordon’s Pink 0.0%, que também busca recriar o gin rosé da marca, mas sem álcool, e o Seedlip Grove 42, destilado botânico também sem álcool que traz um blend de sabores cítricos (como diferentes tipos de laranja) e ingredientes herbáceos (como gengibre e pimenta japonesa).

Como fazer um “mocktail”: ingredientes, estrutura e mais
Assim como na coquetelaria tradicional, os “mocktails” costumam ter elementos em comum, mas existem muitos caminhos para se explorar. Na hora de criar um, uma boa ideia é pensar em uma estrutura que equilibre doce, ácido e algo aromático sobre uma base – e, em um contexto no qual não se usa bebidas alcoólicas, isso costuma ficar por conta de infusões, chás e sucos.
Nesse contexto, chás de hortelã, erva-doce ou especiarias como anis-estrelado e canela, por exemplo, deixam o drink mais leve e aromático. Enquanto isso, o chá preto é uma opção para quem quer um “mocktail” mais encorpado e leve e ligeiramente amargo, e o suco de uva branca traz uma base mais frutada.
Já a doçura costuma vir de xaropes próprios para drinks, mel e frutas secas como tâmara e damasco. Por fim, para equilibrar essa mistura, frutas como limão, amoras, morangos e até uvas podem aparecer de forma a trazer ainda mais uma camada de sabor.
Para quem quer dar um passo além, é possível buscar ingredientes diferentões e bem aromáticos para completar o drink. É o caso, por exemplo, de água de rosas, da água tônica ou de bebidas adaptógenas. No final, basta decorar com elementos como frutas fatiadas, ramos de ervas, flores comestíveis ou até especiarias inteiras, como pimenta-rosa.
Drinks sem álcool e seus perfis
Os “mocktails” se agrupam em três perfis principais: os refrescantes e frutados (que combinam sucos, frutas frescas e ervas com acidez cítrica), os florais (que costumam combinar ingredientes bem perfumados, como hibisco, água de rosas e erva-doce, equilibrando o sabor com frutas) e os especiados (que apostam em especiarias como anis-estrelado, cravo, canela, cardamomo e gengibre sobre bases encorpadas, como o chá-preto).